quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Idade Média


Idade Média: Introdução
Introdução:
Geralmente, consideram-se as invasões bárbaro-germânicas como ponto divisório entre a Antiguidade e a Idade Média. Contudo, outros eventos são tomados para marcar o início desse período, sendo os mais tradicionais:
• o fim do Império Romano do ocidente (476);
• a tomada de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente ou Bizantino (1453).
Além desses marcos tradicionais, os historiadores costumam dividir o período medieval em Alta Idade Média e Baixa Idade Média, cujo limite é o século X.
Na Alta Idade Média (séculos V – X) processou-se a formação da sociedade feudal, que se consolidou nos séculos X e XI, e atingiu sua crise geral e mais profunda ao longo dos séculos XIV e XV. Entretanto, o feudalismo não terminou com o fim da Idade Média; entre os séculos XVI e XVII a Europa viveu o período de transição feudo-capitalista, onde é possível observar a permanência de estruturas ou “vestígios” feudais.
A transição do Império Romano (escravismo) para plena constituição do modo de vida feudal (feudalismo) foi uma obra secular. Esse longo período de transição e estruturação foi marcado por duas etapas:

I – a desestruturação do Império Romano do Ocidente (Baixo Império, séculos IV – V), quando ocorreram as invasões bárbaro-germânicas;
II – a evolução dos reinos romano-germânicos (séculos V– X), fundamentais para a formação do feudalismo europeu.

Ao longo desse processo, a Igreja Católica foi se constituindo na maior instituição medieval. Conseguindo acumular poder econômico e político, acabou por sobrepujar outras instituições e se impor a todos, contribuindo sobremaneira para a formação da conduta, dos valores e da moral da sociedade medieval europeia.
Na Baixa Idade Média (séculos X – XV), o feudalismo entrou em gradual declínio e crise estrutural, devido a uma conjugação de fatores, tais como:

I – a diminuição da instabilidade político-militar (invasões);
II – a incompatibilidade entre a produção e o crescimento da população;
III – os efeitos mais gerais das cruzadas, como a reabertura do mar Mediterrâneo;
IV – o renascimento urbano-comercial e o surgimento da burguesia;
V – a aliança rei-burguesia, que permitiu, associada a outros fatores, a centralização do poder real (Estado Nacional).

Em suma, a partir de agora nos dedicaremos ao estudo da evolução dos reinos bárbaros e à formação, caracterização e crise da sociedade feudal, além do que, cuidaremos também da análise das civilizações bizantina e árabe-muçulmana.

Idade Média – Invasões Bárbaras

1. As Invasões Bárbaras

Na concepção dos romanos, bárbaros eram todos os povos que não estavam sob o domínio imperial, que não falavam latim e que habitavam os territórios além dos limites imperiais. Os bárbaros de um modo geral tinham um modo de produção rudimentar, praticavam uma economia natural e amonetária, vivendo da coleta, caça e pesca. Tinham no saque e nos espólios de guerra uma de suas principais bases de sustentação.
Entre os bárbaros existiam algumas populações que praticavam o pastoreio e a agricultura primitiva, sendo a terra vista como propriedade coletiva.
Os bárbaros desconheciam formas de organização política mais elaboradas de governo ou Estado unificado. Normalmente constituíam nações divididas em tribos.
No plano cultural, a maioria desconhecia o uso da escrita, sendo a vida em sociedade orientada por leis costumeiras (consuetudinárias) e orais. Sua religião, de caráter politeísta, tinha no culto aos antepassados um dos seus principais rituais.
Por volta do século I da Era Cristã, com o expansionismo imperial romano, tornaram-se inevitáveis os contatos entre bárbaros e romanos, o que promoveu profundas mudanças no modo de vida das tribos "não romanas". A propriedade da terra passou a ser particular (privada), em função do enriquecimento de alguns setores da sociedade bárbara. As diferenças sociais começaram a se fazer sentir, com o aparecimento de uma aristocracia comprometida com a guerra e de uma massa de camponeses que viviam fundamentalmente de trabalhar as terras.
Podemos atribuir às tribos asiáticas, em especial à dos hunos, os ataques que pressionaram outros povos bárbaros a penetrar, saquear e ocupar o Império Romano Ocidental.
A crise estrutural generalizada que se estendia sobre a parte ocidental do Império, aprofundada pelas frequentes ameaças de invasões bárbaras, contribuiu para que, em 395, o imperador dividisse finalmente o Império em:
            Romano do Oriente, capital Constantinopla, também conhecido ao longo da Idade Média como Bizantino, e Romano do Ocidente, capital Roma, que, corroído pelas crises e pressões bárbaras, cairia em 476.
O resultado geral dessas invasões  para a Europa, na Alta Idade Média, será no plano conjuntural o domínio dos povos bárbaros germânicos, divididos em reinos na maioria das vezes fragilizados e de efêmera duração.

2. Consequências Imediatas das Invasões

As invasões bárbaras que assinalam o início da Idade Média provocaram uma das mais profundas transformações por que passou a Europa. O Império Romano foi verdadeiramente desintegrado e o mundo parecia mergulhar numa terrível anarquia. Certamente, durante cinco séculos o Ocidente vai sofrer migrações constantes de povos e toda a evolução histórica será ditada pelos múltiplos problemas consequentes da instalação dos bárbaros. Mas o que parecia num primeiro momento um cataclismo irremediável deu origem a uma penetração mútua de dois mundos e deveria finalmente elaborar novas formas de civilização.
Com efeito, nem tudo estava destruído, pois a ideia unitária permanecia de pé em Bizâncio e a Igreja firmava, cada vez mais, o seu poder e o estendia; os próprios chefes bárbaros usam os títulos de cônsul e patrício.
Devemos aos bárbaros muitos aspectos do feudalismo como:

1 – concepção da lei como uma imposição dos costumes e não como expressão da vontade do soberano;
2 – a ideia de lei como uma propriedade pessoal do individuo que podia ser levada onde quer que ele fosse em oposição à concepção romana de lei limitada a um território definido;
3 – o conceito de relação contratual entre governantes e súditos, compreendendo obrigações recíprocas de proteção e obediência;
4 – ideia da soberania eletiva;
5 – a teoria de uma relação honrosa entre o senhor e o vassalo derivada da instituição germânica do comitatus;
6 – o processo pelo ordálio, que era o meio comum de demanda nos tribunais feudais.


Idade Média – Reino Franco

1. O Reino Franco

Ao longo das invasões bárbaro-germânicas do século V, um desses povos, chamados de francos, ocuparam a região da Gália (França). Seu reino expandiu-se durante a Alta Idade Média (séculos V – XI)  alcançando grande parte dos territórios europeus.
            A dinastia Merovíngia (481 – 751) foi responsável pelo início da expansão do Reino Franco, seu soberano mais importante foi Clóvis  (481 – 511), que se converteu ao cristianismo aliando-se à poderosa Igreja Romana. Os herdeiros de Clóvis foram reis pouco enérgicos e ativos, deixando as tarefas políticas e administrativas aos Majordomus (“Prefeitos do Palácio”). Entre esses prefeitos destacaram-se Carlos Martel e Pepino, o Breve.
Carlos Martel notabilizou-se pela derrota que impôs aos árabes islamitas na Batalha de Poitiers (732), detendo o avanço dos sarracenos nos Pirineus (Espanha).
Pepino, o Breve, por sua vez, após depor o último merovíngio, fez-se coroar rei dando início à Dinastia Carolíngea que atingiria o apogeu com seu filho, o maior rei dos francos, Carlos “Magno”.
Atendendo a uma solicitação papal, Pepino combateu os lombardos (Itália Central) e transferiu o domínio das terras conquistadas. Esses territórios passaram à História como “Patrimônio de São Pedro” ou Estados Pontifícios (Papa).
No ano de 768, Carlos Magno  subiu ao poder e a 25 de dezembro de 800 foi coroado imperador do Ocidente pelo então Papa Leão III. Tal fato fez crescer grandemente seu poder e prestígio político.
No plano político interno, podemos destacar: a divisão do Império em condados, o que facilitou a administração regional; a criação das marcas em locais sujeitos a invasões, a entrega de seu governo a chefes militares locais, capacitados a defender essas regiões com seus próprios recursos (marqueses); a instituição do Missi Dominici , que eram enviados de tempos em tempos para fiscalizar a administração dos territórios imperiais (condados e marcas); a regulamentação da administração do Império, através das “capitulares” (leis escritas) e a intervenção na área religiosa, inclusive com a indicação e nomeação do alto clero (bispos).
Carlos Magno promoveu um grande desenvolvimento cultural, conhecido como “Renascimento Carolíngio”.
Atraiu para sua corte grandes sábios, como o gramático Alcuino de York; o historiador Paulo Diácono; o gramático Pedro de Pisa e outros.
Nos monastérios, os copitas dedicavam-se aos manuscritos antigos, livros religiosos e crônicas. Carlos Magno fundou escolas, como a célebre “Escola Palatina” (Aquisgrão). Difundiu o canto gregoriano, a música (órgão), etc.
No plano externo, a administração carolíngia foi marcada pela organização de várias campanhas militares, que ampliaram os territórios imperiais; a intervenção contra os lombardos na Itália Central, a pedido do Papa Leão III e a guerra contra os árabes islamitas ou muçulmanos no norte da península Ibérica (Canção de Rolando).
Porém, após a morte de Luís, o Piedoso (814 – 840), filho e sucessor de Carlos Magno, o Império Carolíngio foi definitivamente dividido entre seus filhos, pelo “Tratado de Verdun” (834).
A França foi entregue a Carlos, o Calvo; a maior porção das terras da Germânia ficou para Luís, o Germânico; a Lotaríngia, formada pelo norte da Itália e uma faixa territorial entre os rios Rodano e Reno, coube a Lotário. Em 870, com a morte de Lotário, a Lotaríngia foi dividida entre Carlos, o Calvo e Luís, o Germânico.
A desarticulação do Império Carolíngio foi um dos fatores mais marcantes na feudalização da Europa Ocidental.


Idade Média – Império Bizantino

1. Origem

Ao final da Idade Antiga, a cidade de Constantinopla, atual Istambul (Turquia), constituiu-se no mais importante centro econômico-comercial e político do decadente Império Romano.
Construída na região da antiga colônia grega denominada Bizâncio, cercada pelos mares Egeu e Negro, a cidade foi edificada a mando do imperador Constantino, impulsionado pela posição geográfica estratégica e favorável (comércio), e tendo como objetivo maior transformá-la na nova capital do Império Romano.
Por estar localizada entre o Ocidente e o Oriente, Constantinopla praticava um intenso comércio com as regiões próximas, além de desenvolver uma importante agricultura, que possibilitou ao Império Romano do Oriente, em contraposição ao Império Romano do Ocidente (Roma) estagnado e decadente, tornar-se um centro rico e a mais importante cidade do Mediterrâneo oriental.
Com a divisão do Império Romano (Teodósio – 395), Constantinopla passou a ser a capital da porção Oriental, consolidando-se a plena autonomia e soberania do que restara do grandioso império em decadência.

2. Evolução Histórica

O Império Romano Oriental, baseado em um forte poder central e de perfil despótico, definiu-se por um marcante avanço das atividades comerciais, que possibilitou a obtenção de reservas para suportar as invasões bárbaro-germânicas. Por outro lado, a agricultura, baseada nos latifúndios (grandes propriedades), no colonato e no escravismo, se desenvolveu ao contrário do modelo de produção feudal que se estabelecia lentamente na Europa ocidental.
O Império Romano Oriental ou Bizantino manteve grande parte das instituições latinas, como os princípios político-administrativos e o latim. Porém, pode-se observar que ao longo da Alta Idade Média o predomínio da cultura grega marcara definitivamente a história bizantina.
Dentre as várias marcas do Império Bizantino, podemos evidenciar a figura do imperador. Comandante do Exército e da Igreja, era visto como um representante todo-poderoso da vontade de Deus. Possuía uma organização burocrática caracterizada pelo grande número de funcionários que o auxiliavam na administração imperial.
Na evolução política bizantina, podemos destacar o imperador Justiniano  (527 – 565), que promoveu a ampliação das fronteiras do Império, organizando expedições militares que alcançaram as penínsulas Itálica, Ibérica e o norte da África.
Contudo, com exceção da península Itálica, as conquistas bizantinas tiveram pouca duração na medida em que sofreram com o expansionismo árabe-islâmico (século VII).
Contudo, o feito mais importante de Justiniano reside no interior do Império. Por volta de 533, a seu pedido, deu-se início à compilação do Direito Romano, dividido em partes: o código, o digesto, as institutas e as novelas.
O código era o conjunto das leis romanas desde o século II. O digesto tratava dos comentários dos mais importantes juristas sobre as leis romanas. As institutas eram os princípios básicos do Direito Romano e as novelas reuniam as leis surgidas no período de Justiniano. A reunião dessas compilações deu origem ao corpus juris civilis (corpo do direito civil), que contribuiu para fundamentar os códigos civis de várias futuras civilizações.
Através dessas leis, os poderes imperiais ficaram praticamente ilimitados e garantiam proteção e privilégios ao clero e grandes proprietários, em detrimento da grande massa marginalizada de colonos e escravos. A política de Justiniano, baseada em uma burocracia centralizada e privilegiada, nos altos impostos e elevados custos militares, resultou em oposição e rebeliões populares, ferozmente sufocadas destacando-se a Revolta de Nika, em 532.
O cristianismo bizantino foi marcado pelo menosprezo ao culto a imagens (elementos materiais), afirmando-se através da espiritualidade tipicamente oriental. Em consequência, apareceram no interior da própria Igreja Oriental-Bizantina as heresias (correntes doutrinárias), que discordavam dos dogmas da Doutrina Cristã Romana apre-goados pelo papa. Podemos definir as heresias como práticas ou manifestações religiosas que se desviaram do cristianismo oficial romano (papa). Dentre as principais heresias orientais ou bizantinas, podemos destacar: os monofisistas e os iconoclastas.
Os monofisistas pregavam que Cristo possuía exclusivamente uma natureza divina, espiritual.

Negavam o dogma cristão romano da Santíssima Trindade (pai, filho e espírito santo) como representante de Deus. Essa corrente doutrinária atingiria sua maior influência a partir do século V, durante o reinado de Justiniano.
Os iconoclastas foram conhecidos por seu empenho em destruir os ícones (imagens), atitude essa que expressava a marcante espiritualidade do cristianismo oriental-bizantino. Esse movimento atingiu seu apogeu durante o governo do imperador Leão XIII que, procurando diminuir a influência do clero e se posicionar contrário ao cristianismo ocidental romano (papa), proibiu a utilização de imagens de Deus, de Jesus Cristo ou de santos nos templos, contando à época com grande apoio da população.
A forte efervescência religiosa provocada pelas heresias levou os imperadores bizantinos à prática do intervencionismo estatal nas questões eclesiásticas, caracterizando o que se convencionou chamar de cesaro- papismo ou a supremacia do poder imperial sobre a Igreja.
Os constantes atritos entre o cristianismo oriental bizantino, representado pelo patriarca, e o cristianismo ocidental, orientado pelo papa, levaram à ruptura da Igreja Bizantina com a Romana Ocidental.
Essas correntes doutrinárias ou movimentos heréticos levaram ao cisma do Oriente (1054), quando Miguel Cerulário (patriarca de Constantinopla) declarou a autonomia plena da Igreja Oriental-Bizantina, apontando o papado como responsável pelo distanciamento dos fundamentos pregados por Cristo e seus apóstolos. Com a divisão, tivemos o surgimento de duas Igrejas: a Igreja Católica Apostólica Romana, subordinada ao papa, e a Igreja Ortodoxa, dirigida pelo patriarca de Constantinopla.
Depois do período de apogeu, durante o reinado de Justiniano, o Império Bizantino entrou em um gradativo declínio. Apoiadas numa sociedade de perfil urbano-comercial, as estruturas imperiais começam, a partir do século X, mostrar sinais de decomposição.
Entre os fatores desagregadores, podemos destacar: a recuperação do comércio ocidental europeu; o crescimento das cidades italianas que transformaram Constantinopla em entreposto comercial italiano (rota do Mediterrâneo – especiarias). Por outro lado, o Império Bizantino via a redução progressista dos seus territórios frente às constantes invasões bárbaras e árabes (séculos VII e VIII).
Podemos com isso concluir que, por volta do século XIII, os problemas imperiais se reproduziram, o que fizeram denotar um Estado enfraquecido e empobrecido para suportar as freqüentes penetrações externas. Em 1453, a cidade de Constantinopla foi tomada e transformada na capital turco-otomana com o nome de Istambul, servindo esse fato como marco cronológico do fim da Idade Média e início da Idade Moderna.

Idade Média – O Islã

1. A Arábia e Maomé

Por volta do século VII, a Arábia era ocupada por tribos de origem semita, hostis entre si, politeístas, místicas e supersticiosas. Eram cerca de trezentas tribos, distribuídas no litoral da península Arábica  (tribos urbanas) e no deserto (beduínos). As tribos urbanas tinham boas condições de sobrevivência, vivendo da agricultura e do comércio; já a vida no deserto era muito difícil e os beduínos não conseguiam sobreviver só como pastores e, por isso, praticavam o butim (saques a caravanas).
A cidade de Meca era o centro comercial e religioso mais importante da Arábia pré-islâmica; ali eram realizadas as feiras, e ali ficava o santuário da Caaba, com a Pedra Negra e as diversas imagens cultuadas pelas tribos de então.
Foi nesse cenário que nasceu Maomé, na tribo dos coraixitas, guardiã da Caaba. Ele era de uma família pobre e ficou órfão aos seis anos de idade; aos quinze, passou a trabalhar como guia de caravanas, que percorriam os desertos do Oriente Médio. Nessas viagens, fez contato com povos e religiões diferentes, que muito iriam influenciar o seu futuro. Conheceu o judaísmo e o cristianismo, assimilou os ensinamentos dessas religiões e integrou-as num sincretismo, isto é, somou elementos das duas religiões e alguns costumes e tradições árabes, surgindo assim, o Islamismo.
Isso só foi possível graças ao seu casamento com Cadidja, uma viúva rica, que possibilitou a Maomé a tranquilidade econômica para que ele pudesse dedicar-se à meditação.
Maomé, então, iniciou a propagação do Islamismo (abandono à vontade de Alá). Se sentido seguro começou a pregação pública aos coraixitas, de quem viria a maior oposição, visto que estavam ligados ao politeísmo que dominava a Arábia. A perseguição e uma tentativa de assassinato fizeram com que Maomé fugisse de Meca para Medina em 622. É a Hégira, ou a fuga, que marca o início do calendário muçulmano.
Em Medina, Maomé conseguiu adeptos e começou a atacar caravanas, cujos hábitos ele conhecia muito bem. Seus êxitos militares eram transformados em prova da existência de Alá. Seu prestígio cresceu na mesma proporção que aumentaram os problemas de Meca. Em 630, com o apoio dos árabes do deserto, Maomé destruiu os ídolos da Caaba, menos a Pedra Negra.
Estava implantado o monoteísmo e com ele surgia o Islão, o mundo dos submissos de coração a Alá e obedientes ao seu representante, o Profeta Maomé. Dessa forma, a Arábia foi unificada como um Estado teocrático.

A. As principais obrigações
           
• Orar cinco vezes ao dia, em direção a Meca.
• Jejuar no Ramadã.
• Visitar Meca pelo menos uma vez na vida.
• Praticar a caridade (dar esmolas, principalmente os ricos).
• Cometer ou praticar a Guerra Santa.
           
B. As principais proibições
           
• Não praticar jogos de azar.
• Não comer carne de porco, nem ingerir álcool (bebidas).
• Não reproduzir figuras de seres vivos.

2. O Corão e o Suna

O conjunto de crenças, obrigações e a doutrina dos muçulmanos está reunido em dois livros sagrados: o Corão, espécie de Bíblia dos muçulmanos; e o Suna, livro que contém os ensinamentos e fatos da vida de Maomé, recolhidos pelos seus sucessores. estabelecido o califado Abássida. A máxima expansão dos árabes, no século XI, já não correspondeu a um império unido, pois governavam os califados independentes.
De acordo com o Corão, somente os parentes de Maomé poderiam substituí-lo, mas o Suna não dizia a mesma coisa. Isso possibilitou o surgimento de duas vertentes rivais, a dos sunitas e a dos xiitas. Os coraixitas, tribo à qual Maomé pertencia, converteram-se à seita sunita e passaram a disputar o poder com os parentes de Maomé. Essa divisão permanece até aos dias atuais.

3. A expansão árabe-muçulmana

Com a morte de Maomé, o Império Árabe (Islão) expandiu-se na direção da Síria, Palestina, Mesopotâmia, Pérsia, grande parte da Índia, península Ibérica e zona insular do Mediterrâneo ocidental. Os árabes só seriam barrados, em 732, pelo franco Carlos Martel na batalha de Poitiers (Pirineus).
Antes do aparecimento de Maomé, os árabes que viviam na península eram em sua maioria tribos de semitas nômades e politeístas. Mas encontravam-se árabes também nos domínios de Roma, da Pérsia, do Egito. Após a morte de Maomé (632), os quatro primeiros califas expandiram o Islão . A derrota do Império Bizantino em Damasco (635), a do Império Persa em Nehavend (643), marcaram o início dessa expansão. Depois englobaram o Egito e a Líbia, mesclando-se com os povos bárbaros, egípcios e outros. A dinastia Omíada (661-750), sem grande preocupação religiosa, empenhou-se em ocupar Itokia e o Magreb, ao norte da África. O general muçulmano Tarik, aproveitando a confusão política de Ceuta, atravessou o estreito de Gibraltar (Djebel al Tarik) e deu início à conquista da Espanha (711), então domínio visigodo. O reino franco também foi invadido. Em 732, porém, batidos em Poitiers por Carlos Martel, os árabes abandonaram a conquista para o oeste. Do lado da Ásia, também encontraram forte resistência; e além do rio Oxus estavam os turcos.
A última realização dos Omíadas foi a fundação do Emirado de Córdoba (756), seis anos depois de já estabelecido o califado Abássida. A máxima expansão dos árabes, no século XI, já não correspondeu a um império unido, pois governavam os califados independentes.

4. As conquistas e suas repercussões

Estas conquistas militares e territoriais foram feitas pelos califas (sucessores do profeta Maomé). Num primeiro momento, eles eram escolhidos entre seus parentes (dinastia Fatímita). A partir de 661, com a dinastia dos Omídias, o cargo de califa tornou-se hereditário.
Com a dinastia dos Abássidas (750 a 1258), em virtude da extensão territorial, separaram-se os califados de Córdoba (Espanha), Marrocos, Tunísia e Egito. O setor oriental do Império permaneceu unificado, mas enfraqueceu-se lentamente. Por volta do final da Idade Média, ele foi sendo dominado sucessivamente pelos turcos seldjúcidas, mongóis e turcos otomanos.
A influência dos árabes e do Islã (Império de Alá) foi marcante na vida da Europa feudal ocidental, e provocou as transformações econômicas, sociais e políticas que se seguiram ao fechamento do Mediterrâneo ocidental (ruralização europeia).
Os árabes atuaram também como intermediários entre o Oriente e os comerciantes europeus e divulgaram, através do comércio e das suas áreas de ocupação na península Ibérica (Espanha), um rico legado cultural, que conseguiram coletar no contato com os povos dominados.
No plano cultural, as maiores contribuições árabes foram:

• Desenvolvimento do estudo da Matemática, da Medicina, da Química e da Filosofia.
• Introdução de novas práticas agrícolas e de produtos orientais na Europa (especiarias).
• Difusão do uso do papel, da bússola e da pólvora.
• Desenvolvimento da pecuária (equinos, carneiros...).
• Uso de abóbadas na arquitetura (Alhambra e Mesquita de Córdoba, Espanha).






Idade Média – Feudalismo
1. Origens do Feudalismo

O feudalismo teve seu processo de formação iniciado a partir das transformações ocorridas no final da Antiguidade, com a crise do Império Romano do Ocidente e das invasões bárbaro-germânicas, atingindo sua cristalização na Alta Idade Média (séculos V – X). O processo de decadência desse modo de produção já se fazia sentir no início do século XI, mas prosseguiria até o século XV, culminando na transição feudo-capitalista no final da Baixa Idade Média (séculos X – XV).
Por volta do século V, com o declínio romano e a desestruturação do modo de produção escravista, ocorreu um grande êxodo urbano, levando a população a buscar sua sobrevivência no campo. A atividade agrícola, desenvolvida nas grandes propriedades ou latifúndios (vilas), constituiu a base de uma economia de subsistência (auto-suficiência/colonato) tendo como consequência maior a estruturação do modelo feudal de produção.
Nesse contexto, os bárbaros germânicos, que passaram a ocupar a porção ocidental do Império Romano em decomposição, foram significativos elementos do processo de estruturação do modo de produção feudal, embora outros povos invasores tenham contribuído para promover a aceleração da ruralização e feudalização europeia.
Entre eles, estão os árabes que, por volta do século VIII, ocuparam a bacia do Mediterrâneo bloqueando as relações entre o Ocidente e o Oriente. Posteriormente, no século IX, as invasões normandas e magiares fechariam essas ondas de instabilidade militar provocadas pelas invasões no continente europeu.
Podemos, com isso, concluir que o modo de produção feudal foi resultado da conjugação de fatores estruturais (fusão do modo de vida romano e bárbaro) e conjunturais (invasões bárbaras, árabes, normandas, etc).


2. Economia Feudal

O sistema feudal, característico do Ocidente europeu, tinha por fundamento a economia agrária, natural (amonetária), auto-suficiente e rural. O modelo de propriedade feudal era o latifúndio senhorial, pertencente à camada privilegiada (elite/origem), formada pela nobreza feudal (senhores e alto clero).
A principal unidade de produção era "o feudo" que se dividia da seguinte maneira:

I. Manso senhorial: terras de propriedade e posse do senhor feudal.
II. Manso servil: terras de propriedade do senhor feudal, mas trabalhadas pelos servos e família.
III. Manso de reserva: bosques, pastagens e pradarias que eram utilizados pelo senhor feudal e seus servos.
IV. Burgo: castelo fortificado do senhor feudal.

Em função do modelo expropriador gerado pelo feudalismo, fundamentado na excessiva cobrança de tributos ou "obrigações servis", o servo não tinha o estímulo necessário para o aumento da produção ou melhorias técnicas (instrumentos de produção). Por essa razão, a produção era estática e o desenvolvimento técnico quase nulo. A principal técnica usada foi a agricultura rotativa em três campos, o que evitava o esgotamento do solo, mantendo a constituição e fertilidade das terras do feudo (rotação bienal/trienal).



 Note que todos os campos estão divididos em faixas, cultivadas por diferentes servos: cada letra identifica um deles. Por exemplo, o servo A cultiva uma faixa no campo 1, uma no campo 2 e outra no campo 3.
 
3. Sociedade Feudal

A sociedade feudal era formada por duas camadas (estamentos), ou melhor, dois grupos sociais rigidamente hierarquizados (status quo = origem): os senhores feudais e os servos.
Os servos constituíam a maior parte da população camponesa submetida, como no colonato romano, às pressões e à exploração senhorial. Eram forçados a realizar serviços e a pagar diversos impostos ou obrigações em troca da permissão de uso ou posse da terra e da tão necessária proteção militar representada pelo castelo feudal.

Principais obrigações servis:

• Corvéia: trabalho gratuito nas terras do senhor (manso senhorial) em alguns dias da semana.

• Talha: porcentagem da produção das tenências.

• Banalidade: tributo cobrado pelo uso de instrumentos ou bens do senhor, como o moinho, o forno, o celeiro, as pontes.

• Capitação: imposto pago por cada membro da família servil (por cabeça).

• Tostão de Pedro: imposto pago à Igreja, utilizado para a manutenção da capela local.

• Mão morta: tributo cobrado na transferência do lote de um servo falecido a seus herdeiros.

Em suma, a sociedade feudal era marcada pela desigualdade. As relações sociais ocorriam entre as camadas (estamentos), assumindo uma função de reciprocidade e complementaridade. A relação senhor–servo era baseada na dominação e subordinação, mantendo-se a hierarquia proprietário–força de trabalho. Contudo, entre os senhores, estabeleciam-se relações de reciprocidades, denominadas vassálicas. O fundamento dessas relações era a prestação do serviço e proteção militar.
De um modo geral, alto clero, nobreza e servos eram os grupos básicos e definidores da sociedade feudal, havendo, porém, alguns "status anormais" ou menores. Dentro desses grupos encontram-se os vilões, antigos proprietários livres, também presos ao feudo e à proteção senhorial. Na verdade, eram servos com maiores direitos e liberdades.
                                              
4. Política Feudal

No período de plenitude do feudalismo, notavam-se quatro instituições ou elementos básicos: o feudo, o suserano, o vassalo e o contrato feudal.
O feudo era um território que se doava: essa porção de terra era um instrumento rendoso para o doador, pois dele cobraria pedágio, obrigações, etc. O suserano era o nobre feudal que doava o feudo (o rei ou senhor que resolvesse desmembrar seus territórios). O vassalo era o senhor ou nobre feudal que recebia o feudo. O contrato feudal era o documento que regulava a doação do feudo, bem como os direitos e deveres (obrigações) do suserano e do vassalo.
A doação se processava em cerimônia solene, composta pelo ritual da "homenagem" e da "investidura". Na homenagem, o vassalo ajoelhava-se, colocando-se a serviço do suserano e procedia ao "juramento de fidelidade". Na investidura, o suserano entregava um símbolo que representasse o feudo (lança com uma flâmula, espada, ou anel).
Recebido o feudo, o vassalo passava a ter certas obrigações para com o suserano. As mais importantes eram:

• prestar-lhe auxílio militar;

• participar de seu tribunal;

• dar-lhe contribuições financeiras em algumas ocasiões (guerras, epidemias).

O suserano, por seu turno, obrigava-se a oferecer ao vassalo proteção militar e garantir-lhe certos direitos, entre os quais:

• administrar livremente o feudo;

• o direito de cobrar tributos (obrigações);

• cunhar moedas;

• ministrar a justiça (local).

Em síntese, durante a Idade Média, o poder estava nas mãos do rei e da nobreza feudal (alto clero e senhores), com o rei, o poder era de direito (herança), pois, de fato, o poder político era exercido pela nobreza. Dessa maneira, as instituições políticas se apresentavam descentralizadas, marcadamente localizadas (localismo político/mandonismo).

5. Igreja Medieval

A Igreja Cristã tornou-se, ao longo da Idade Média, a maior instituição feudal do Ocidente europeu. Sua incontável riqueza, a grandiosa estrutura eclesiástica com sua sólida organização hierárquica e a herança cultural clássica (greco-romana) permitiram-lhe controlar a cultura e exercer a hegemonia ideológica.
Participando de todos os segmentos da sociedade medieval, a Igreja criou normas, dirigiu comportamentos e, sobremaneira, impôs aos ideais do homem medieval os valores teológicos, ou melhor, a cultura religiosa (teocentrismo cristão).
Envolvido pelo ideal teocêntrico, o clero difundia pela sociedade medieval uma visão de mundo que lhe era conveniente e adequada à época: um mundo dividido em camadas (estamentos), necessariamente desiguais.
Todo esse prestígio e poder resultaram da atuação da Igreja na vida medieval: conservou e difundiu padrões culturais clássicos (greco-romanos); cristianizou os bárbaros; assegurou a unidade religiosa do Ocidente; fez dos ideais cristãos o fundamento ideológico da vida ocidental; disciplinou a guerra, através da "Paz de Deus", da "Trégua de Deus", da cavalaria; e organizou as Cruzadas contra os sarracenos.
Detentora de boa parte da Itália central, a Igreja pronto se transformou, também, em uma potência política.
Com isso, gerou-se uma interdependência entre o poder temporal (político) e o poder espiritual (religioso). Exemplo dessa inter-relação e dependência foi a concessão do direito aos soberanos de nomearem os bispos e padres. Essa atitude levou aos cargos eclesiásticos homens despreparados, o que resultou em grande parte na decomposição da Igreja como Instituição.
Tentando diminuir a interferência dos reis no plano espiritual-religioso, vários papas entraram em confronto com os soberanos. Dentre os casos mais célebres temos, no século XI, a "Questão das Investiduras", entre o papa Gregório VII e o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Henrique IV. Foi, também, o caso dos conflitos ocorridos no século XIV, entre o papa Bonifácio VIII e o rei francês Filipe, o Belo.
Por outro lado, as ordens religiosas desempenharam significativo papel na vida da Igreja medieval.
Elas dedicaram-se, por excelência, ao assistencialismo e à ação intelectual.
Desde a criação da ordem Beneditina (São Bento – 529), multiplicaram-se as ordens monásticas. Seus componentes, chamados de monges, praticavam a meditação, a penitência, a pobreza, vivendo afastados da sociedade com seus estudos e trabalho.
A partir daí, tivemos a existência de duas espécies de clero: o secular, que atuava entre os fiéis; e o regular, composto de monges em retiro (mosteiros).
Por volta do século XIII, surgiram os franciscanos e dominicanos. Essas novas ordens deram origem à prática de uma vida religiosa que conjugava o tipo monástico com a atuação no seio da população. Mesmo assim são incluídos no clero regular.
Contudo, apesar de seu poder e prestígio, a Igreja enfrentou diversos movimentos separatistas. Em 1054, ocorreu, como já vimos anteriormente, o "Cisma do Oriente", pelo qual os bizantinos e algumas comunidades orientais deixaram de reverenciar o papa e fundaram a Igreja Ortodoxa (Patriarca – Constantinopla).
Também no Ocidente onde predominavam o papa e a Igreja Católica, Apostólica, Romana, surgiram heresias, ou correntes doutrinárias contrárias aos princípios oficiais, entre as quais se destacaram:

• a dos valdenses, que combatia o sacerdócio e certas práticas religiosas, como o culto das imagens;
• a dos albigenses (século XIII), que pregava ideias de origem oriental (maniqueísmo persa);
• as de João Wiclef (1320 – 1384) e de João Hus (1369 – 1415), que combatiam a cobrança de tributos pela Igreja e pregavam o direito de livre interpretação da Bíblia pelos fiéis.

Estes dois movimentos são considerados precursores do Reformismo Protestante.
Por fim, coube ao clero elaborar a mentalidade da época, reafirmando o predomínio da nobreza feudal (alto clero e senhores), justificando os privilégios instituídos e oferecendo à massa (servos), em contrapartida, a promessa do céu (paraíso celestial). Sem dúvida, a estruturação do modelo feudal na Alta Idade Média, em sintonia com a ascensão do cristianismo, consolidou de um lado o poder particular ou mandonismo local (senhores feudais), de outro, o poder universal da Igreja (papa).
 
Idade Média – A Crise Feudal e as Cruzadas
Introdução

O período conhecido na História por Baixa Idade Média estendeu-se dos séculos XI ao XV e foi caracterizado por significativas mudanças na sociedade medieval, as quais contribuíram para a crise geral do modo de produção feudal (servidão) e a gradual estruturação do futuro sistema capitalista (Pré-Capitalismo).
Do ponto de vista econômico, a economia de consumo (auto-suficiência), característica do modo de produção feudal, foi lentamente evoluindo para a economia de mercado e comercial. No aspecto social, a rígida estrutura em camadas (estamental) foi-se decompondo, surgindo concomitantemente um novo segmento social ligado à atividade comercial: os mercadores ou comerciantes (burguesia). No cenário político, o poder senhorial foi enfraquecendo ante a crise do feudalismo e a centralização do poder real, o que originou a formação de Estados monárquicos nacionais e centralizados.
Esse conjunto de transformações de ordem estrutural e conjuntural, que marcou os primórdios da Baixa Idade Média, teve suas origens nas próprias contradições do modelo feudal, que se tornava inadequado para satisfazer às aspirações mais gerais da sociedade medieval.

1. A Crise do Feudalismo

Com o final da instabilidade político-militar, provocada pelas constantes invasões na Europa, o homem medieval passou a ter melhores condições de vida e adaptação aos territórios que habitava. As grandes ondas epidêmicas que assolaram a Europa logo após o período das grandes invasões diminuíram, ante o isolamento da população em feudos, impedindo a difusão pelo contágio.
Fruto dessa nova conjuntura, por volta do século X, o índice de natalidade passou a superar o de mortalidade.
O crescimento demográfico evoluía, contudo; a incompatibilidade com os limites das estruturas de produção feudal acentuavam-se.
A produção baseada na servidão era limitada, não alcançando o nível crescente de consumo, em função do baixo nível técnico e da pesada carga tributária (obrigações servis). Com isso, a produção limitada e insuficiente para atender a crescente demanda seria o principal fator de transformações na sociedade feudal.
Como consequência instantânea, tivemos a crescente marginalização social: os senhores feudais, procurando regular o consumo e a produção, aumentavam as obrigações e pressionavam a saída dos excedentes populacionais dos feudos.
Grande parte dessa massa populacional começou a se estabelecer em pequenas vilas ou aldeias e antigos centros urbanos, que, com o passar do tempo, foram se transformando em incipientes polos comerciais e futuros mercados. Outros, marginalizados pela situação econômica, viviam do saque, formando grupos de ladrões de estrada.
O aumento da população, por exigir maior produtividade, em um primeiro momento estimulou o desenvolvimento de novas técnicas para a agricultura. Dessa maneira, surgiram novos instrumentos, como o arado de ferro; novos objetos para atrelar os animais; aperfeiçoamento dos moinhos hidráulicos.
Porém, o relativo desenvolvimento tecnológico emperrou na própria estrutura estamental: o servo não tinha estímulo para o trabalho ou inovações, à medida que as obrigações e os tributos expropriavam seu ganho de produtividade.
Por sua vez, o aprimoramento técnico foi muito restrito, não conseguindo superar a crescente demanda.
Também foi tentada uma expansão dos limites dos territórios para a agricultura, avançando sobre bosques e florestas que, no entanto, foram pouco eficazes, revelando a necessidade de ampliar os limites geográficos europeus.
Para esse processo de expansão, fez-se uso dos excedentes populacionais, os quais participariam das expedições militares e da conquista e ocupação dos novos territórios.
Foi nessa situação histórica que se enquadrou a expansão germânica para o Leste Europeu, e a participação de um grande número de cavaleiros na Guerra de Reconquista contra os sarracenos (península Ibérica) e no movimento cruzadista.

2. O Movimento Cruzadista

As cruzadas são, normalmente, definidas como um conjunto de expedições militares e religiosas dos cristãos contra os sarracenos (islamitas ou muçulmanos), com o objetivo de derrubar o bloqueio a que vinham submetendo a Europa Medieval (século VIII). Dessa maneira, o ideal cruzadista de libertar os lugares religiosos tradicionais (Santo Sepulcro), na Palestina, tornou-se o estandarte desse movimento. Essas expedições já haviam sido conclamadas pelos imperadores bizantinos, que precisavam do apoio ocidental para barrar o ímpeto conquistador dos turcos seldjúcidas sobre o Oriente Europeu. A Igreja Católica, buscando recuperar a influência no Oriente, impulsionou as cruzadas.
Inquestionavelmente, o espírito religioso medieval foi um fator fundamental para a articulação do movimento cruzadista. Porém, outros fatores, como a marginalização social consequente do aumento da população feudal e a permanência do costume de primogenitura, foram desencadeadores das cruzadas. De acordo com o costume de primogenitura, apenas o filho varão mais velho do nobre feudal herdaria as terras e os títulos paternos, restando aos outros a vassalagem, o clero, ou a aventura cavalheiresca das conquistas. Para os segmentos marginalizados, não atrelados ao modo de produção, e para os nobres deserdados, o movimento cruzadista significou a oportunidade da conquista e da satisfação "espiritual" e material (saque).
Outro fator importante foi o interesse comercial, principalmente dos mercadores italianos. Para esses homens de negócio, as cruzadas representavam a oportunidade de retomada e rearticulação comercial com a reabertura do mar Mediterrâneo e a aquisição de portos e vantagens comerciais no Oriente (especiarias).
Dessa forma, utilizando como pretexto a expansão dos turcos seldjúcidas no Oriente, o então papa Urbano II, em manifesto proferido no Concílio de Clermont (1095), convocava a cristandade a ingressar nas cruzadas. Com esse pronunciamento, tinham início as diversas cruzadas realizadas entre 1096 e 1270.
As cruzadas fracassaram em relação aos seus objetivos, mas alcançaram resultados inesperados e importantes, determinando o rumo da Idade Média desde então.
Milhares de nobres desapareceram ou ficaram arruinados e, assim, as cruzadas favoreceram a centralização política por parte dos reis. Desta forma, também a Igreja foi afetada, pois a inter-relação Igreja-feudalismo era muito grande: o declínio deste representou igualmente o declínio daquela.
As cruzadas foram um dos grandes responsáveis pela decadência do Império Bizantino. A Quarta Cruzada, dos italianos, arrasou Constantinopla e separou definitivamente a cristandade ocidental da oriental.
No plano econômico, as cruzadas reabriram o Mediterrâneo; afastando os muçulmanos, possibilitaram assim o renascimento comercial e urbano. Deste modo, involuntariamente, deram novo golpe no feudalismo, acelerando sua decadência.
No plano cultural, as cruzadas ajudaram os ocidentais a tomarem conhecimento das contribuições muçulmanas. No entanto, a maioria das influências culturais árabes que chegaram ao Ocidente, vinham através da Espanha e não dos reinos latinos do Oriente.

Idade Média – Renascimento Comercial-Urbano
1. O Renascimento do Comércio

Com a reabertura do mar Mediterrâneo, ocorreu a rearticulação do comércio europeu, e as cidades italianas foram as mais favorecidas. Apoiadas na posição geográfica favorável e no fortalecimento de suas ligações comerciais com o Oriente, as cidades italianas conseguiram a prioridade na distribuição dos produtos orientais (especiarias) por toda a Europa (rota do Mediterrâneo). Na Europa nórdica, o comércio teve seu maior desenvolvimento na região dos mares do Norte e Báltico e, sobremaneira, em Flandres (tecidos/lã).
O crescimento do comércio na parte meridional e setentrional do continente europeu possibilitou a interação entre essas regiões, por meio de rotas comerciais (terrestres/fluviais). Dessa maneira, promovendo a navegação por rios, como o Reno, o Danúbio e o Ródano, os comerciantes organizavam as feiras, que se tornaram os primeiros locais de comércio (temporário).
Por volta do século XIV, as mais expressivas feiras foram realizadas em Champagne (França), região situada no coração da Europa ocidental. Nesses pontos de comércio temporário, os mercadores nórdicos podiam comercializar tecidos, peles, madeira, mel e peixes com os mercadores italianos, detentores do monopólio oriental (especiarias).
Esse desenvolvimento da atividade comercial propiciou o ressurgimento das finanças, com a volta da circulação monetária, do crédito, das letras de câmbio, enfim, estimulando as atividades bancárias. Nesse processo, a riqueza latifundiária (terra) perdia a supremacia e surgia um novo segmento social, os comerciantes.
Durante o século XIV (peste, fome e guerra), o comércio das feiras de Champagne passou por um período de profunda crise, em conseqüência da conjuntura criada pela Guerra dos 100 Anos (1337-1453), entre França e Inglaterra, e da difusão da peste negra.
Em função dos problemas que afetaram a região de Champagne, Flandres conseguiu um grande desenvolvimento comercial. Saindo pelo interior na rota fluvial do rio Reno, ou pelo Mediterrâneo, passando por Gibraltar e depois rumo ao Atlântico – mar do Norte – os comerciantes, principalmente os italianos, contribuíram para desenvolver os portos de toda a Europa.
Por volta do século XII, surgem as ligas, também chamadas de hansas, que se tornaram importantes coligações de cidades medievais. Reunindo uma grande diversidade de atividades e produtos, conseguiram realizar o comércio em alta escala.
As mais importantes rotas foram as inglesas, flamengas e a teutônica (Liga Hanseática).
As hansas tiveram fundamental importância na dinamização dos mercados e das cidades medievais. Sua atuação, baseada no lucro e acúmulo de capitais, denotava o pré-capitalismo que levaria à grande Revolução Comercial (séculos XV e XVI).

Idade Média – Renascimento Comercial-Urbano
2. O Renascimento Urbano

Na Baixa Idade Média, com o surgimento e crescimento da classe mercantil, foi sendo estabelecido gradualmente um estilo de vida urbana baseado não mais nos estamentos sociais feudais, mas sim na sociedade de classes.
Por volta do século XIV, as vilas e cidades eram compostas por uma população cada vez mais dedicada ao comércio e artesanato. Grande parte dos centros urbanos florescia a partir das antigas vilas e cidades, contudo, em regiões estratégicas (castelos, abadias, rios, estradas, etc.), a partir das rotas e feiras, multiplicando-se novos centros urbanos.
Os chamados burgos, nome dado a essas cidades medievais, resultaram do fato de muitas delas serem fortificadas (amuralhadas). As muralhas que as rodeavam tinham por objetivo maior resguardar e proteger seus habitantes, os burgueses.
Embora tivessem uma relativa liberdade de atividades mercantis e artesanais, as cidades medievais estavam localizadas em territórios feudais, portanto, viam-se sujeitas à autoridade dos nobres ou senhores feudais; os burgueses eram obrigados a respeitar as leis locais e a pesada tributação.
Com o desenvolvimento comercial e o crescimento econômico-social da burguesia, essas cidades passaram a buscar maior autonomia e independência.
Essa luta pela emancipação das cidades medievais estendeu-se do século XI ao século XIII e passou para a história com o nome de movimento comunal.
A independência dos centros urbanos, quando conquistada por caminhos pacíficos, dependia, na maioria das vezes, do pagamento de indenizações aos senhores feudais.
Em outras situações, quando os senhores feudais resistiam às mudanças, as cidades buscavam no rei, em processo de fortalecimento, o apoio político-militar (luta armada).
De qualquer maneira, as cidades que se tornavam independentes da influência senhorial buscavam legitimar suas conquistas pelas cartas de franquia, documentos pelos quais se formalizam as conquistas da burguesia, tais como:

• direito à arrecadação de tributos para a cidade;
• organização da própria milícia;
• fim dos tributos feudais;
• autonomia jurídico-administrativa.

As corporações de ofício eram associações de artesãos e mercadores, que tinham o objetivo de manter o monopólio da produção ou comercialização de determinado produto, numa região, para seus membros. Buscavam manter a uniformidade de preços e qualidade dos produtos e agrupavam todos os trabalhadores de um mesmo ramo de uma localidade.
As corporações eram formadas por mestres, oficiais ou companheiros e aprendizes. O mestre-artesão era o proprietário da oficina e dono também da matéria-prima e das ferramentas. Ele ficava com todos os produtos fabricados e, portanto, com todos os lucros da venda.
Para auxiliar o mestre, havia os oficiais, geralmente filhos ou parentes próximos que recebiam um salário pelo seu trabalho. A situação dos oficiais não era muito inferior à do mestre. Eles mesmos podiam tornar-se mestres, desde que houvesse uma expansão do mercado e que a corporação permitisse a instalação de uma nova oficina.
Os aprendizes geralmente eram parentes menores. Ficavam subordinados diretamente ao mestre, com o qual aprendiam a profissão e noções gerais de educação. A etapa da aprendizagem durava em geral sete anos, podendo variar de três a doze, após a qual o aprendiz se tornava oficial.
A ascensão dentro dessa hierarquia era muito lenta. Dependia de uma série de condições. Uma era a expansão do mercado local, que exigia mais produção e, portanto, mais oficiais, mestres e aprendizes. Além disso, a conquista do grau de mestre, com o passar dos tempos, ficou sujeita a certas condições, como pagamento de direitos, nascimento legítimo, filiação burguesa e realização de uma obra de arte dentro da especialidade, que era julgada pelo corpo de mestres já existente.
Esse modo de produção artesanal era válido somente para o mercado local. Com o desenvolvimento do comércio internacional, apareceram novas relações de trabalho. Primeiramente, os artesãos começaram a depender de um comerciante que lhes fornecia a matéria-prima e os instrumentos de trabalho e lhes pagava um salário. Esses trabalhadores podiam ser contratados por uma jornada de trabalho: eram os jornaleiros. Sua situação era muito difícil, pois ficavam sujeitos aos azares do mercado, ao desemprego, enfim, a condições de vida miseráveis. O comerciante intervinha na produção para conseguir melhores ganhos na venda do produto. Conseguia isso baixando o custo da produção (comprando matéria-prima barata e contratando mão de obra também barata). Esse novo personagem era o comerciante manufatureiro, que preparava o aparecimento das manufaturas da época moderna.

A Formação dos Estados Nacionais
1. A Formação das Monarquias Nacionais

Carlos Magno fizera ressurgir, com seu domínio por quase toda a Europa, a idéia do poder imperial, porém, com sua morte (814) e o consequente desmembramento de seu império, cairia por terra seu ideal. O Tratado de Verdun (843) dividiu o Império Carolíngio em três partes distintas: França Oriental, França Ocidental e a Lotaríngia.
A divisão foi fatal para o poder real, pois os três reinos passaram prontamente à dominação feudal. A Europa se viu mergulhada num período de retrocesso, em que não havia comércio e a economia de subsistência caracterizava as unidades político-econômicas: os feudos.
Os reis se resumiram a simples latifundiários. O sistema era estático e sedimentou gradualmente suas estruturas político-econômicas. Por outro lado, a partir da Baixa Idade Média, o modo de produção feudal era, cada vez mais, um modelo em desintegração.
O renascimento urbano-comercial, a passagem de uma economia de consumo para uma economia de mercado, em que o fator básico de riqueza era o monetário e não o fundiário; o nascimento da burguesia que, para dar continuidade às suas atividades comerciais, exigia e apoiava o fortalecimento de um poder central; um crescente atrito entre o poder secular e o papado; o enfraquecimento da nobreza, devido ao desgaste provocado pelas cruzadas, e a introdução de novos armamentos (pólvora), que enfraquecia o poder militar dos nobres, abalaram de tal maneira as estruturas em vigor, que o feudalismo não conseguiu superar. O maior beneficiado, nesse processo, foi o poder político central. O enfraquecimento do feudalismo daria origem à formação das monarquias nacionais, esteio do futuro Estado moderno.
           
França: evolução política
           
Como vimos, a divisão do Império Carolíngio (843) deu origem a um conjunto de Estados, nos quais a autoridade real era fraca.
Nos anos que se seguiram à divisão (Tratado de Verdun), os territórios franceses entregues a Carlos, o Calvo, passaram a ser frequentemente atacados pelos normandos (vikings). Esse soberano e seus sucessores foram incapazes de conter o caos que se estabeleceu. Não conseguiram, tampouco, impedir que os nobres (senhores feudais), administradores das partes do reino, se aproveitassem da conjuntura para ampliar sua autoridade.
Em 877, ainda no reinado de Carlos, o Calvo, foi assinada a Capitular de Quiercy, que tornava hereditárias as terras pertencentes aos condes. Por outro lado, Carlos III, o Simples, doou alguns de seus domínios aos normandos, fato que originou o ducado da Normandia. Nesse contexto, estabeleceram-se as bases do feudalismo francês.
Ao se extinguir a Dinastia Carolíngia, o nobre Hugo Capeto foi coroado rei da França (987). Iniciou-se, dessa maneira, a Dinastia dos Capetíngios (987 – 1328). Os reis dessa dinastia, inicialmente, aceitaram o feudalismo; porém, por volta do século XII, passaram a cuidar do fortalecimento do próprio poder. Restabeleceram o princípio da hereditariedade na sucessão real e colocaram em prática uma política de reconquista territorial, por meio de guerras e de matrimônios com filhas de nobres de importância.

À medida que o poder real foi-se fortalecendo, surgiram conflitos com a Igreja. Durante o reinado de Felipe IV, o Belo (1285 – 1314), registrou-se um choque entre esse soberano e o então Papa Bonifácio VIII. O Papa não permitia que o rei cobrasse tributos da igreja francesa. O sucessor do Papa Bonifácio VIII, Clemente V, foi levado a residir em Avignon, dando origem à tradição dos Papas franceses que viveram naquela cidade (1309 – 1378).
Durante a Dinastia Valois (1328 – 1589), a França envolveu-se na Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453) contra a Inglaterra. O conflito enfraqueceu sobremaneira os senhores feudais de ambos os países, política e militarmente. Ao término da guerra, estavam lançadas as bases dos modernos Estados francês e inglês.
           
A Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453)
           
O conflito assim denominado envolveu a França e a Inglaterra . A primeira vivia sua fase de centralização do poder real. Enquanto a segunda, auxiliada pelos poderosos senhores feudais franceses, tratava de garantir extensos territórios (feudos) ingleses na França, pois estes vinham sendo ameaçados pela expansão dos domínios reais.
Podemos observar também que, aos ingleses, interessava bloquear o crescimento da influência francesa sobre Flandres (Bélgica), que era importante centro fabricante de tecidos e grande consumidora de lã inglesa.
A causa mais imediata do conflito foi a ascensão de Felipe VI ao trono da França. No entanto, Eduardo III, da Inglaterra, tinha pretensões de ser o herdeiro legítimo. A guerra teve quatro grandes fases:
A primeira (1337 – 1360): foi marcada por amplas vitórias dos ingleses. Estes, pelo Tratado de Brétigny, apoderaram-se de mais de 1/3 do território francês.
A segunda (1369 – 1380): caracterizou-se pela reação vitoriosa dos franceses. Comandados por Du Guesclin, eles conseguiram reconquistar as regiões perdidas, deixando algumas poucas cidades nas mãos inglesas.
A terceira (1415 – 1420): representou nova fase de vitórias inglesas. A vitória inicial dos ingleses foi na Batalha de Azincourt, permitindo-lhes a ocupação da maior parte do território francês. Essa ocupação foi garantida pelo Tratado de Troyes (1420).
A quarta (1428 – 1453) e última fase: teve seu início com o cerco de Orléans pelos ingleses. Foi o período das vitórias de Joana D'Arc, que estimularam os franceses a se reorganizarem, de forma a vencer definitivamente os invasores. Depois de 1453, somente a cidade francesa de Calais restou nas mãos dos ingleses.

Inglaterra: evolução política

Ao longo do século V, a Inglaterra foi invadida pelos anglos, saxões e jutos. Organizou-se, a partir de então, um conjunto de Sete Reinos (Heptarquia).
No período entre os séculos IX e X, as terras inglesas, como outras regiões da Europa Ocidental, foram atacadas, frequentemente, pelos normandos (vikings). Em 1066, o duque Guilherme, da Normandia (feudo normando situado na França), conhecido como Guilherme, o Conquistador, invadiu a Inglaterra.
Ao vencer os ingleses, comandados pelo rei Haroldo, na Batalha de Hastings, Guilherme distribuiu os territórios conquistados dos senhores anglo-saxões, que haviam lutado contra ele, entre os senhores normandos.
A Igreja Inglesa, grande proprietária feudal, teve sua autoridade subordinada ao rei, que passou a indicar e nomear o alto clero.
Após os governos sucessivos de dois filhos de Guilherme, instalou-se a Dinastia Plantageneta (1154 – 1399), fundada por Henrique II. Esse rei se assenhoreou de importantes feudos franceses, ao se casar com Leonor da Aquitânia, ex-rainha francesa.
Após o reinado de Henrique II (1154 – 1189), vieram os governos de Ricardo I, Coração de Leão (1189 – 1199), João Sem-Terra (1199 – 1216) e Henrique III (1216 – 1272).
Com Ricardo I, Coração de Leão, a administração real foi desastrosa, pois, juntamente com o imperador germânico Frederico Barba Ruiva e com o rei francês Felipe Augusto, aventurou-se na terceira cruzada.
O reinado de seu irmão, João Sem-Terra, foi marcado pela luta contra Filipe Augusto, da França (para quem perdeu vários feudos, inclusive o da Normandia), contra a Igreja e a nobreza feudal. Estes, em 1215, forçaram-no a assinar a Magna Carta.
Através desse documento, foram garantidos os direitos da Igreja e da nobreza feudal contra o intervencionismo real. A Igreja assegurava seu direito de indicar os ocupantes dos cargos eclesiásticos. Os nobres, por sua vez, asseguravam seu direito à liberdade, estabelecendo que os transgressores da lei só poderiam ser punidos depois de terem sido julgados por pessoas do seu status quo.
A aplicação dos princípios da Magna Carta foi regulamentada pelas Provisões de Oxford, elaboradas por Henrique III (1216 – 1272). Durante seu reinado, Simão de Monfort conseguiu que representantes da pequena nobreza e da burguesia fizessem parte do Grande Conselho dos Senhores. Tinha início, dessa maneira, a evolução do que seria no futuro o Parlamento.
Com Eduardo III (1327 – 1377), iniciou-se a Guerra dos Cem Anos. O conflito, como já vimos, teve como causa imediata o interesse desse rei pelo trono da França, recém-ocupado por Felipe VI.
A proclamação do duque de Lancaster, Henrique IV (1399), levou ao poder a Dinastia de Lancaster (1399 – 1461), ao longo da qual começaria a derrocada do feudalismo inglês (Guerra das Duas Rosas).
           
A Guerra das Duas Rosas (1455 – 1485)

Essa guerra ficou assim conhecida porque ambas as famílias, York e Lancaster, pretendentes ao trono, exibiam rosas em seus brasões. Durou 30 anos, nos quais tiveram lugar sangrentas e devastadoras batalhas, em que grande parte da nobreza foi aniquilada. Em 1485, Henrique Tudor, descendente dos Lancaster e, por matrimônio, também ligado aos Yorks, pôs termo ao conflito, sendo coroado com o título de Henrique VII.
As consequências da guerra foram o inevitável enfraquecimento da nobreza feudal e a implantação de uma Monarquia forte e centralizada, iniciada com a Dinastia Tudor. Dessa maneira, a autoridade da nobreza, firmada com a Magna Carta nos tempos do rei João Sem-Terra, perderia sua força e prestígio.

Espanha: evolução política
           
Ao longo das invasões bárbaras (século V), a península Ibérica foi ocupada por alanos, suevos e, posteriormente, pelos visigodos. Estes últimos, a partir do ano de 453, formaram um reino, que abrangia a região peninsular e alguns territórios da atual França ocidental.
No ano de 711, a expansão árabe-muçulmana atingiu a península Ibérica. O líder visigodo Pelágio organizou um centro de resistência ibérica nas Astúrias e deu início à chamada Guerra de Reconquista, fazendo frente aos muçulmanos. As vitórias cristãs propiciaram o nascimento de vários reinos independentes, como: Astúrias, Leão, Castela, Navarra e Aragão, como também o Condado Catalão.
As rivalidades existentes entre esses reinos causaram guerras que retardaram o processo de unificação e centralização espanhola. Em 1469, quando D. Fernando de Aragão e Isabel de Castela se casaram, seus reinos compreendiam quase a totalidade do atual território espanhol, exceto o reino muçulmano de Granada (situado no sul) e o pequeno reino de Navarra (situado no nordeste).
D. Fernando e Isabel, conhecidos como reis católicos, deram início a reformas administrativas e legislativas, buscando agilizar a unificação. Porém, esse processo se realizaria na sua plenitude ao final da Reconquista (718 – 1492).
           
Portugal: evolução política
           
Henrique e Raimundo de Borgonha, dois nobres de origem francesa, destacaram-se na Guerra de Reconquista, desenvolvida contra os muçulmanos, na península Ibérica. Casaram-se, respectivamente, com Tareja e Urraca, filhas do rei de Leão, D. Afonso VI, a quem serviam como vassalos. Henrique recebeu, ainda, como feudo, o condado de Portucale (atual região do Porto, no Vale do Rio Douro, em Portugal).
Seu filho e herdeiro, Afonso Henriques, deu continuidade à política do pai. Após vencer os inimigos na importante Batalha de Ourique (1139), proclamou-se rei e promoveu a emancipação de seus domínios.
Com Afonso Henriques, teve início a Dinastia de Borgonha (1139 – 1383), na qual se destacaram principalmente: D. Diniz, o Lavrador (1279 – 1325), D. Afonso IV, o Bravo (1325 – 1357), e D. Fernando, o Formoso (1367 – 1383).
D. Diniz promoveu o desenvolvimento da agricultura, da marinha e, consequentemente, do comércio marítimo luso. Fundou a universidade de Lisboa, logo transferida para Coimbra.
D. Afonso IV, por sua vez, marcou seu reinado pelo constante conflito com Castela (Espanha).
D. Fernando, seguindo a linha de D. Diniz, reativou o estímulo à atividade agrícola, comercial e cultural.
Com a morte de D. Fernando, sua esposa, D. Leonor de Teles, assumiu o trono como regente (1383 – 1385), o que estimulou a forte reação nacionalista lusa, pois pretendia que sua filha, D. Beatriz, casada com D. João I, de Castela, herdasse o trono português.
A reação portuguesa foi comandada por Álvaro Pais que conseguiu apoio financeiro da burguesia portuguesa, por João das Regras responsável pelo respaldo jurídico ao movimento e pelo condestável Nuno Álvares Pereira que comandou as forças militares que garantiram a ascensão de D. João, mestre de Avis, ao trono de Portugal em 1385 após a vitória em Aljubarrota, dando início à Dinastia de Avis.
Com a tomada de Ceuta (norte da África – 1415), os portugueses deram início à expansão marítima portuguesa (infante D. Henrique).
           
O Sacro Império Romano-Germânico: evolução política
           

Mesmo após o Tratado de Verdun (843), a Germânia seria governada, ainda por algum tempo, por soberanos carolíngios. Tais soberanos não conseguiram evitar o estabelecimento do feudalismo. Em seguida, começaram a surgir importantes ducados, como Saxônia, Baviera, Suábia e Francônia, ao lado de vários domínios da Igreja.
Com o final da Dinastia dos Carolíngios, ascendeu ao poder a Dinastia Saxônica (919 –1024). Um dos seus soberanos, Oto I (936 – 973), aproximou-se politicamente da Igreja e, em 962, foi coroado imperador da Germânia.
Desde então, os imperadores passaram a participar das eleições papais e a interferir nelas, e a Igreja passou a interferir na sucessão imperial. Sua autoridade política, entretanto, era, na prática, pequena, porque a força e o prestígio da nobreza feudal eram muito grandes.
De 1024 a 1125, período em que imperou a Dinastia da Francônia, ocorreram vários atritos entre o poder imperial e o poder papal. Um desses conflitos de interesses ocorreu entre o Papa Gregório VII e o imperador Henrique IV, e passou para a História como a Querela das Investiduras.
O Papa Gregório VII tentava diminuir a influência e o intervencionismo imperial germânico nas questões religiosas. Para isso, decidiu limitar o direito que os imperadores possuíam de escolher representantes para o Alto Clero (bispos). Esse direito era, na maioria das vezes, utilizado para conduzir aos bispados pessoas que agissem politicamente de acordo com os interesses imperiais. Dessa maneira, constantemente, as indicações resultavam em administrações inadequadas às funções religiosas.
O imperador rebelou-se contra a decisão do Papa, e este, por sua vez, excomungou-o, além de dispensar seus vassalos das obrigações que possuíam para com o imperador. Henrique IV pediu, então, perdão ao Papa, em Canossa (1077). Porém, depois de perdoado e tendo recuperado sua autoridade, manteve a mesma conduta, perseguindo o Papa Gregório VII, que teve de fugir de Roma e por fim morreu no exílio. Deposto, por influência dos papas que sucederam Gregório VII, o imperador Henrique IV teve a mesma sorte de Gregório VII.
A situação foi finalmente resolvida com a Concordata de Worms (1122). Desde então, o direito de sagração e investidura dos bispos passou à exclusiva esfera papal. O imperador, por sua vez, mantinha o direito de dar-lhes a investidura feudal.
Ao findar a Dinastia da Francônia, teve início, no Império, um conflito entre os partidários do Duque da Saxônia, apoiado pelo Papa (Guelfos), e os partidários da família Hohenstaufen (Gibelinos). Desse confronto, saíram vitoriosos os gibelinos e a Dinastia dos Hohenstaufen (1138 – 1254).
Dentre os soberanos dessa dinastia, sobressaíram-se principalmente: Frederico I, Barba Ruiva (1152 – 1190) e Frederico II (1220 – 1250). Com Frederico Barba Ruiva, foi estabelecido um governo de perfil despótico e absoluto, contra o qual se rebelaram os nobres germânicos, a Igreja e as cidades italianas. Já Frederico II, rei culto e bastante descrente das doutrinas da Igreja, teve forte oposição papal e acabou excomungado.
Foi com essa dinastia que o império passou a ser intitulado de Sacro Império Romano-Germânico.
Com o final dos Hohenstaufen, seguiu-se um período de conturbações, conhecido como o Grande Interregno (1254 – 1273), no qual o trono do Sacro Império ficou vago.
Em 1273, com o apoio da Igreja, subiu ao trono Rodolfo de Habsburgo, dando origem à Dinastia Habsburgo. Austríaca de origem, dominaria o Sacro Império Romano-Germânico , até a Idade Moderna.
           
Itália: evolução política
           
Do período compreendido entre a queda de Roma (476) e a intervenção de Carlos Magno (774), a península Itálica passou por três grandes fases de ocupação:
• os ostrogodos (489 – 555)
• os bizantinos (582 – 602)
• os lombardos ( 573 – 774)

O período de dominação lombarda foi profundamente prejudicial ao papado, em virtude da autonomia administrativa e dos pesados tributos impostos pelos lombardos. A pedido da Igreja, Carlos Magno subjugou-os, em 774, resgatando o poder temporal papal.
Com a divisão do Império Carolíngio que, em grande parte, propiciou a feudalização da Europa Ocidental, teve início na península Itálica um período bastante conturbado. Esse período foi marcado pelos conflitos entre a nobreza feudal, os papas e os imperadores germânicos, em especial após a criação do Sacro Império Romano-Germânico (962). A partir desse fato, os soberanos germânicos passaram a intervir nas eleições dos papas, considerados súditos da Coroa germânica.
Por volta do início do século XI, os territórios italianos não integrantes do Sacro Império Romano-Germânico eram dominados pelos árabes-muçulmanos (Sicília), pelos bizantinos (Apúlia e Calábria) e pela Igreja. A partir de 1029, as primeiras ondas invasoras normandas (vickings) estabeleceram-se ao sul da península, enquanto ao norte predominava a tendência feudal.
Em reação aos imperadores germânicos, sobressaíram-se alguns papas, que tentaram recuperar o prestígio político papal. Entre eles, Gregório VII (1073 – 1085), Urbano II (1088 – 1099), Inocêncio III (1198 – 1216) e Bonifácio VIII (1294 – 1303).
Os séculos XIV e XV, por sua vez, foram caracterizados pelo enfraquecimento gradual da posição política dos papas.
Ao período do Papado de Avignon (1309 – 1378), seguiu-se o Cisma do Ocidente (1378 – 1417), em que se elegiam papas, ao mesmo tempo, na França e na Itália. Adicionava-se a essa conjuntura o crescimento das doutrinas que pregavam a superioridade das resoluções dos concílios sobre as decisões dos Papas.
Podemos, por fim, salientar o estabelecimento dos normandos, ao sul da península e na Sicília (1105 – 1194), e a instalação de repúblicas, ou cidades italianas autônomas (século XI), traçando o perfil da evolução política italiana nos séculos seguintes.


2. As Crises dos Séculos XIV e XV

A sobrevivência do feudalismo em meio ao desenvolvimento comercial e urbano resultou, no final do período medieval, em um conjunto de crises resultantes do anacronismo e da inadequação estrutural e conjuntural. No período compreendido entre os séculos XIV e XV, essas crises acentuaram decisivamente o declínio do modo de produção feudal, que não mais conseguia suprir as aspirações e necessidades da sociedade medieval, propiciando a estruturação definitiva de uma nova ordem econômica e social que tomaria a Europa e soterraria o modelo feudal medieval.
As crises de natureza econômica, as pestes e as guerras criaram as conjunturas que afetaram o desenvolvimento comercial de algumas regiões como a Europa Central, apesar de observarmos o despontar do comércio em Portugal e no mar do Norte.
No geral, entretanto, a Europa como um todo sofreu com os efeitos dessas crises cíclicas e marcantes no final da Idade Média.
A gênese dessas crises estava nas transformações ocorridas ao longo da Baixa Idade Média e na incapacidade do feudalismo em assimilar tais mudanças. No século XIV (retração), a Guerra dos Cem Anos e a peste negra dizimaram significativa parcela da população europeia, delineando uma situação histórica explosiva, em que tiveram lugar as rebeliões servis, a fome, o banditismo, a falta de mão de obra e os massacres.
No século XV (desenvolvimento), a falta de metais preciosos (moedas) e de mercados, somada ao alto preço dos produtos orientais (especiarias), levaram a Europa a problemas, cuja solução residia em uma grande expansão que proporcionasse novos rumos para o comércio, especialmente o Oriente. Dessa maneira, num processo de ampla revolução comercial, a expansão marítima e comercial europeia do século XV transformou-se em instrumento fundamental para o desenvolvimento econômico-comercial e urbano, tendo, na burguesia e no Estado forte e centralizado, seus principais agenciadores.
Essa empresa teve como resultado maior o descobrimento da América (Colombo – 1492) e da nova rota comercial para as Índias (Vasco da Gama – 1498).
Com a superação dos entraves econômicos feudais a partir do sucesso da expansão marítima, a Europa passaria a vivenciar a estruturação definitiva do capitalismo.
                       
           
           
           
           


Um comentário:

  1. parabens quem foi que escreveu isso muuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiitto bbbbbbbbbboooooooooooooooooooooooooooooooooommmmmmmmmmmmmmmm........................

    ResponderExcluir